30.11.06

Arte pública, na mesa...


A pintura grega encontra-se na arte cerâmica. Os vasos gregos são também conhecidos não só pelo equilíbrio de sua forma, mas também pela harmonia entre o desenho, as cores e o espaço utilizado para a ornamentação. Além de servir para rituais religiosos, esses vasos eram usados para armazenar, entre outras coisas, água, vinho, azeite e mantimentos. Por isso, a sua forma correspondia à função para que eram destinados. As pinturas dos vasos representavam pessoas em suas atividades diárias e cenas da mitologia grega. Enquanto a arte egípcia é uma arte ligada ao espírito, a arte grega liga-se à inteligência, pois os seus reis não eram deuses, mas seres inteligentes e justos que se dedicavam ao bem-estar do povo. A arte grega volta-se para o gozo da vida presente e na constante busca da perfeição, o artista grego cria uma arte de elaboração intelectual em que predominam o ritmo, o equilíbrio, a harmonia ideal. Eles tem como características: o racionalismo; amor pela beleza; interesse pelo homem, que é “a medida de todas as coisas”; e a democracia.

Sobre Arte Grega
Ex-curadora de museu dos EUA é acusada de roubar peça grega

6.10.06

No tempo do folhetim



Folhetim é uma obra romanesca na qual sobressai a intriga, por vezes recambolesca, editada em episódios sucessivos no jornal ou na rádio. Originalmente, o folhetim era um artigo ou crónica sobre literatura, ciência, crítica, publicado na parte inferior e a toda a largura dum jornal. Foi no início do século XIX que surgiu o folhetim. Todos os jornais quiseram, então, ter o seu folhetim. Tornou-se comum o romance-folhetim, tornado célebre pelo espírito ou invenção de Eugéne Sue, Alexandre Dumas e seus seguidores. O romance-folhetim divertia e prendia o leitor, desempenhando, assim, um grande papel, sobretudo na imprensa popular.

26.8.06

"O atestado de óbito da esperança"


Esperando Godot, obra-prima do dramaturgo irlandês Samuel Beckett (1906-1989). A peça estreou em 1953 e se tornou um divisor de águas no teatro do século passado. Na história, dois vagabundos aguardam a vinda do sr. Godot, que nunca aparece. Enquanto aguardam, eles iniciam uma reflexão a respeito da vida. No centro de Godot, estão dois palhaços tristes, implicantes, insatisfeitos e solitários, que passam os dias a esperar a solução de seus problemas. Na trama, os vagabundos Estragon e Vladimir esperam em vão a chegada de um personagem enigmático, um certo Godot (símbolo do inalcançável). Beckett foi capaz de mergulhar nas mazelas inerentes à condição humana, encontrando a solidão e o absurdo dessa condição. Baseando-se na chegada de Godot, as personagens mostram a constante busca pela felicidade para reverter sua condição de miséria. Atualidade social e metafísica e uma incrível comicidade tornam "Godot" um grande espetáculo popular. A obra de Beckett, mais do que representar a superfície inteligível da vida, o autor disseca a consciência humana e os sistemas pelas quais tentamos organizar nossas vidas.

"Godot...será que ele vem? Será que não? Talvez virá... amanhã!"

Nota: Samuel Beckett é considerado o pai do chamado "teatro do absurdo". Abordando o vazio da vida criou um humor: amargo, sombrio, levemente absurdo na sua disposição de ser irônico e zombeteiro. Em 1969, Beckett recebeu o Prêmio Nobel de Literatura.

Imagem: Intervenção urbana Esperando Godot. Direção:Wolfgang Pannek, SP, 2000.

30.7.06

Os nus de Muybridge


Os primeiros nus masculinos na história da fotografia surgiram em 1872, com fins científicos. O britânico Eadweard Muybridge uniu fotografias individuais, captadas separadamente, tornando visíveis as fases da locomoção, utilizando como modelos animais domésticos, além de mulheres e homens nus, inclusive ele mesmo. Seus estudos foram publicados somente em 1887 e conquistaram uma comedida respeitabilidade científica, já que os modelos nus, principalmente os masculinos, representavam um escândalo. A divulgação do escândalo de Muybridge serviu de estímulo a outros artistas, que não buscaram qualquer justificativa científica para fotografar ou utilizar fotografias de nus masculinos. Thomas Eakins, considerado o maior pintor norte-americano do século XIX, utilizou os trabalhos de Muybridge na composição de suas pinturas, mas foi forçado a renunciar ao cargo de professor da Academia de Belas Artes da Pensilvânia, por trabalhar com modelos masculinos nus em uma turma mista. A circulação paralela e ilegal do nu artístico masculino perdurou em muitos países até o final da década de 1960. Em 1968, a revista americana Grecian Guild Pictorial venceu uma ação na Suprema Corte dos Estados Unidos, que finalmente reconheceu essa modalidade de fotografia como arte. A profusão de revistas explorando o nu masculino, de apelo artístico, erótico ou mesmo pornográfico, cresceu vertiginosamente desde então.

Crédito imagem:
wikipedia.org

21.7.06

Política de Eventos

Ao longo das décadas governantes brasileiros tratam a cultura pelo seu aspecto "espetacular". A cultura é "show". Dirigido a um determinado mercado cultural, focalizado um certo extrato da população. Neste entendimento só teriam acesso à cultura os grupos sociais intelectualmente preparados para consumir aquela obra ou aquele produto ofertado. Na verdade o que interessa aos gestores oficiais é se o "espetáculo" produz visibilidade política. Em todo o País tem se praticado de maneira uniforme os "megaeventos" em nome da cultura. Exemplo disso são os carnavais fora de época - nichos de mercado de gravadoras, companhias de bebidas e marketing político. Um formato multiplicado nas capitais brasileiras. A prática reforça a postura "dirigista", já que desconsidera diferentes modos culturais. À margem de uma política de apoio à produção e ao artista, as populações urbanas e rurais praticam as várias formas de expressão, geralmente ignoradas pela grande mídia e pelo mercado formal. A política de eventos no Brasil é caracterizada pelo efêmero, interesse político e favorecimento econômico. Um grande evento governamental ou não, só se justifica se tiver sentido na vida das pessoas e que o acontecimento venha irrigar o tecido social. Novas tendências na arte, lançamento de produtos, avanços tecnológicos, abertura de mercados, encontros com temas amplos na mobilização da comunidade científica e no intercâmbio das culturas, na certa, são necessários. Esse tipo de ação de grande porte, pela própria natureza, traz no seu interior resultados provocadores ao fortalecimento cultural, a tomada de rumos e novas posturas frente as grandes questões do mundo contemporâneo.

6.5.06

A arte pernambucana: da década de 70 ao mangue-beat

A arte moderna pernambucana passou por vários momentos do Modernismo ao movimento Manguebeat. Neste artigo, a teórica Helena Pedra mapeia a arte contemporânea localizando seus principais momentos. A década de 70 criou uma nova geração nas artes plásticas em Pernambuco, respaldada já em uma tradição construída nas anteriores. Quase todos os artistas dessa geração tinham como base para criação as informações e experiências que foram consolidadas por meio de artistas modernistas como Vicente do Rego Monteiro, Cícero Dias e Lula Cardoso Ayres. Além do Gráfico Amador, grupo criado por Aloísio Magalhães, que segundo Joaquim Cardozo "produziu, talvez, na época, as mais belas páginas da arte de impressão do Brasil". Ainda há o refinamento na pintura de Reynaldo Fonseca e a coragem estética de Montez Magno. Outras personalidades marcaram movimentos importantes, como o Atelier Coletivo liderado por Abelardo da Hora, que em 1954 teve a oportunidade, também, de reunir um número de artistas que são referência na arte pernambucana; e o Movimento da Ribeira, conduzido por Adão Pinheiro e Vicente Monteiro, na década de 60, responsável pelo aparecimento de José Tavares, João Câmara, José Barbosa, Maria Carmem e Tiago Amorim, entre outros. Com o Golpe Militar de 64, o movimento é abortado, mas a semente germina tornando Olinda um dos principais centros de pintura no país. No início da década de 80, os artistas criam um movimento que teve repercussão em todo o país: a Brigada Portinari, de inspiração político-contestatória e de apoio ao retorno de Miguel Arraes do exílio. Consistia numa participação coletiva, de posicionamento político, associado à obra artística e individual. Participaram desse movimento Antônio Carlos Montenegro, Fernando Lins, Aprígio, Frederico Fonseca, Bete Gouveia, Alex Montelberto, Fernando Guerra, Gil Vicente, Flávio Gadelha, Piedade Moura, Iza do Amparo, Eudes Mota e Plínio Palhano. Na década seguinte, marcada pela falta de apoio ao artista e pelo fechamento dos salões oficiais, a produção artística passou a se caracterizar pela individualização. Em meio a esse contexto ressurge a Oficina Guaianases de Gravura , criada em 1979 por João Câmara e Delano, defendida pelo artista plástico Renato Valle, que reunia artistas de diversas tendências, fazendo a gravura reassumir com força o seu espaço. A década de 90 aponta para uma tendência: a "nacionalização" das artes plásticas, que ganha reforço a partir da política cultural implementada nos museus e galerias públicas e pela ascendência do curador como agente "interventor" na obra do artista. A produção artística passa, então, necessariamente, pelas tendências de uma quase "unidade estética", priorizando aí não mais o artista local, propriamente dito, mas o que poderia determinar as exposições itinerantes oriundas do eixo Rio-São Paulo ou as mostras internacionais. Nesse contexto surgem grupos emergentes influenciados pelas correntes contemporâneas e com ênfase na arte conceitual, como os artistas ligados ao Grupo Camelo. Outro sintoma desse momento é a importância que adquire o "espaço" cultural como formador de novas gerações de artistas e do público expectador. Vale ressaltar o papel investigativo desempenhado pelo Laboratório de Pesquisa Plástica do Instituto de Arte Contemporânea (projeto piloto no Recife Antigo) e, atualmente, pelos cursos avançados promovidos pelo Centro Cultural da Fundaj, ambos na função de catalisadores e responsáveis, também, pelo surgimento de uma massa crítica. De Brennand ao brücke expressionista Atualmente, a pluralidade de linguagens permite dialogar no mesmo tempo e espaço, passando pelas figuras antropomórficas e mitológicas do mestre escultor Francisco Brennand, os figurativos na visualidade da arte popular ou o Recife Graffiti no periférico da cidade. O brücke expressionista na obra de Plínio Palhano, a neofiguração de Alexandre Nóbrega e Ana Montenegro, a pesquisa em novas mídias de Edgar Ulisses, o despojamento formal de José Patrício, as esculturas portáteis de Sebastião Pedrosa ou a abstração geométrica de Eudes Mota, entre outros, demonstram o vigor da representação na arte pernambucana. Finalmente, podemos considerar, sobre a atual arte produzida em Pernambuco, que ela apresenta a ambivalência pós-moderna entre linguagens tradicionais e inovadoras. Além disso contribui para a estética pós-moderna ao fazer referências à sua própria história da arte na busca de uma identidade e ao se abrir às experimentações tecnológicas e a uma diversidade maior, demonstrando com isso a manutenção de uma estética singular como resistência à homogeneização cultural. Reflexos do Mangue em Pernambuco Uma sociedade cuja malha cultural mistura a erudita, a popular e de massa, a artesanal, industrial ou globalizada. Foi nesse cenário, com uma capacidade incomum de mesclar os mais diversos grooves, que o músico Chico Science (em meio a manguezais, caranguejos, aratus e ao som dos tambores de maracatus), movido pela paixão por funk, hip-hop, grafiteiros e pela black music, fez surgir na periferia de Olinda um som singular - hoje, mais do que uma batida rítmica, uma cultura chamada Mangue. A cultura Mangue retrata o imaginário popular, de ícones, mitos, de personagens, becos e avenidas. Os efeitos desse movimento podem ser percebidos, além da música, em outras manifestações estéticas: na moda pernambucana, por exemplo, teve uma influência determinante. O manguefashion extraiu das ruas elementos do gosto e comportamento urbanos, agregando materiais da artesania popular. No cinema a identificação e a forte influência do manguebeat foi concebida por Lírio Ferreira e Paulo Caldas ao realizar o nordestern Baile Perfumado. Já nas artes plásticas a estética mangue veio reforçar o hibridismo e desterritorialização já existente, entre o racional e o afetivo, entre interrupções e retomadas, seja na figuração, na neofiguração, na abstração ou na desmaterialização do formal comum na arte contemporânea. O elemento popular toma força na arte escatológica do Grupo Submarino (do lixo industrial ao objeto em desuso), das personagens satirizadas pelo escultor Evêncio (figuras quase-vivas recriadas do universo urbano), nos materiais plásticos do "acaso" na obra de Fernando Lins (retraços de demolições), também refletido nas imagens captadas em A Corte Vai Passar do fotógrafo Luis Santos (arte e conteúdo) e na matéria prima utilizada pelo artista plástico Marcelo Silveira (objetos do agreste pernambucano representado na arte conceitual). Portanto, o movimento mangue surgido em 1991 é marco na música contemporânea pernambucana, influencia a cultura da moda brasileira, cria reflexos nas artes plásticas e visuais. Mais do que influências e reflexos o movimento mangue, estabelece um novo olhar e sentido para as referências culturais no nordeste do Brasil. Helena Pedra é professora do departamento de Teoria da Arte da Universidade Federal de Pernambuco e consultora em política cultural

* Texto publicado na Revista Veredas – Edição 77 – Rio – Maio 2002